E por falar em flores... Lembrei de um conto do Cotarzar (autor apresentado pela Naomi, menina de quem sinto saudade). Não achei ele na internet, mas achei uma matéria. Esse não está entre os que marcaram a Naomi, mas me marcou. Existem também outros vários, maravilhosos que nos deixou ( eu e Naomi) empolgadas, loucas, procurando imagens no youTube.
Enfim, é de um livro chamado Bestiário, são contos de realismo fantástico, e deixaria qualquer um encantado...
"Histórias para pensar
SOBRE UM CONTO DE CORTÁZAR
por Rinaldo de Fernandes
Um dos autores mais importantes para mim é o argentino Julio Cortazar. Impossível deixar de reconhecer isso – e permanentemente o faço como gratidão à capacidade desse contista de mover minha sensibilidade e inteligência (se é que as possuo). Gosto de praticamente todos os contos dele – da atmosfera, do ambiente, da arquitetura de seus personagens. Um dos contos mais intensos e inquietantes do século XX é “Ônibus”, que consta do famoso livro Bestiário, que Cortazar publicou na década de 50.
De técnica apurada, acelera o leitor à proporção que a marcha do ônibus aumenta. Clara, uma das protagonistas do conto, pega numa esquina o ônibus 168, que ronda por bairros de Buenos Aires, e se depara com uma estranha gente que passa a observá-la insistentemente assim que adentra o veículo. Os olhares mais duros, e estranhamente ameaçadores, vêm do motorista e do cobrador. À frente, sobe um outro passageiro, um homem, que, como Clara, sofrerá o mesmo peso dos olhares insistentes. Eis o insólito, o fantástico, infiltrando-se no real. Mas infiltrando-se de forma sutil, como o perfume dos ramos que os demais passageiros – que seguem para o cemitério de Chacarita – carregam.
Entrando pela janela como os charcos (e muito provavelmente seus odores) que se estendem nos fundos dos terrenos baldios e que Clara, tentando descontração, observa. Clara e o homem, de uma hora para outra, inseguros, instáveis. Numa palavra, desamparados. Mas nada é mais importante do que a intensidade com que isso é narrado. O motorista, em certo momento, após os outros passageiros desceram diante do cemitério, ficando no ônibus somente Clara e o homem, torna-se ainda mais ameaçador. Vem vez por outra para cima dos dois, agora sentados juntos, tentando enfrentá-los como um desmiolado. Daí a única saída, para Clara e o outro, ser buscar uma maneira de descer desse ônibus, que no entanto descamba por ruas numa velocidade aterrorizante.
O que quer esse motorista tão intimidador? Por que enfrentar dois passageiros que, de tão amedrontados, amparam-se, segurando-se nas mãos? O conto não apresenta as respostas, deixa-as implícitas. Clara e o homem, num lance intempestivo, escapolem do veículo quando este pára diante de uma praça. E saem andando, ainda angustiados, pela praça cheia de crianças e sorveteiros. O homem compra de um vendedor dois ramos de flores. As mesmas flores que eles não dispunham no interior do veículo e que os fizeram se sentir deslocados diante daqueles que as levavam ao cemitério.
Em literatura, penso que poucos personagens pegarão um ônibus tão assustador como esse do autor argentino. Talvez o motorista seja uma alegoria da morte, a que a todos conduz para o desconhecido. Talvez o ônibus seja a nave que a todos transporta para as portas do céu ou do inferno (tal a barca de Caronte). E tudo muito perfumado pelas flores dos que a todos acompanham à campa. Parece ser da morte e da angústia que ela nos provoca que o conto trata."
Rinaldo de Fernandes é contista consumado. Autor das obras O Caçador, Perfume de Roberta. Professor de literatura organizou os livros Chico Buarque do Brasil, O clarim e a oração e Contos cruéis. É titular da coluna Rodapé/ Ponto de Vista Crítico, nos suplementos literários curitibano Rascunho e no paraibano Correio das Artes.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
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Não lembro direito desse conto! Vou reler. Eu sempre releio os meus preferidos: "Carta a uma senhorita em Paris" e "Casa tomada"... =)
ResponderExcluirGostei do texto do Rinaldo! Bom, né?