quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Apenas porque é meu conto preferido! E que seja doce!

Os dragões não conhecem o paraíso
Tenho um dragão que mora comigo.Não, isso não é verdade.Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.Isso me pareceu gradiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.Estou me confundindo, estou me dispersando.O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.Ainda não comecei.Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinho banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: "Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível".Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in - invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?Não, não é assim. Isso não é verdade.Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.Quando volto apensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.Nada, nada disso existe.Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.Não, isso também não é verdade.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Signos, de novo!!!

Áries (21/3 - 19/4): 1. Frase: "Não sei bem o que quero, só sei que quero JÁ!" 2. O que o ariano espera de seu parceiro: Para o ariano, o que importa é a conquista. O desafio de conseguir a pessoa amada é sua principal motivação. Pode perder o interesse quando consegue seu objetivo. Gosta de correr riscos, o que pode levá-lo a se envolver em triângulos amorosos. 3. O que o ariano diz depois do sexo: "Legal, vamos de novo!" 4. Como irritar um ariano: Fale com eles dando uma enorme pausa entre as palavras. Não deixe que eles falem, ou, se falarem, corte pelo meio. 5. Como o ariano reza antes de dormir: "Querido Deus! Dê-me PACIÊNCIA, e eu a quero AGORA"! 6. Por que o ariano atravessou a rua? Certamente para bater boca com alguém que estava do outro lado. 7. Você foi assaltado e o ariano.... Dá um soco na mesa e diz: "Mas que merda! Não se pode andar mais tranqüilo na rua nos dias de hoje!" 8. Adesivo para o vidro do carro do ariano: "Passa por cima, Ô babaca!" 9. Quantos arianos são necessários para trocar uma lâmpada? Apenas um, mas serão necessárias muitas lâmpadas.

Touro (20/4 - 20/5): 1. Frase: "Amor numa cabana? Só se for 5 ESTRELAS". 2. O que o taurino espera de seu parceiro: A ênfase é para a parte prática do relacionamento: quem vai pagar a conta, onde se vai morar, a estabilidade que a relação traz, e a satisfação sensual que o parceiro pode proporcionar, sejam na cama ou à mesa. 3. O que o taurino diz depois do sexo: "Estou com fome - passe a pizza" 4. Como irritar um taurino: Gaste o dinheiro deles, peça para Dar uma dentada no seu sanduíche ou na sua maçã, desperdice seu material, não devolva suas coisas. 5. Como o taurino reza antes de dormir: "Deus, por favor, ajude-me a aceitar MUDANÇAS em minha vida, mas NÃO AGORA." 6. Por que o taurino atravessou a rua? Porque encasquetou com a idéia. 7. Você foi assaltado e o taurino.... Comenta sem se preocupar muito: "Ah, o importante é que você está bem.. Vão-se OS anéis mas ficam OS dedos..." 8. Adesivo para o vidro do carro do taurino: "Não tenho tudo que amo... Mas é uma questão de tempo e paciência.." 9. Quantos taurinos são necessários para trocar uma lâmpada? Nenhum. Taurinos não gostam de mudar nada.

Gêmeos (21/5 - 20/6): 1. Frase: "Odeio fofocas... Mas... já te contei a última?" 2. O que o geminiano espera de seu parceiro: Para o geminiano o que conta é o companheirismo, o ter alguém com quem conversar, trocar idéias, e principalmente para ouvi-lo. Gostaria de encontrar o seu gêmeo ou sósia intelectual. Quer sentir-se livre para ir e vir quando bem entender. 3. O que o geminiano diz depois do sexo: "Você viu o controle remoto?" 4. Como irritar um geminiano: Aborreça-OS com lágrimas e longos monólogos sobre sua vida emocional. Não converse com else, em absoluto. 5. Como o geminiano reza antes de dormir: "Hei Deus...Ou será deusa?... Quem é você?... O que é você?... Onde está você?... Quantos de você há? Eu não posso te imaginar!" 6. Por que o geminiano atravessou a rua? Se nem ele sabe, como é que eu vou saber? 7. Você foi assaltado e o geminiano.... "È' impressionante o preço que pagamos pra conviver num meio urbano... E essa criminalidade é assustadora, pois as diferenças sociais se acentuam e blá blá blá"... (FICA falando por meia hora) 8. Adesivo para o vidro do carro do geminiano: "Não me siga, posso mudar de destino a qualquer momento" 9. Quantos geminianos são necessários para trocar uma lâmpada? Dois (claro). Vai durar o final de semana inteiro, mas quando estiver pronto, a lâmpada vai fazer o serviço DA Casa, falar francês e ficar DA cor que você quiser.

Câncer (21/6 - 22/7): 1. Frase: "Lar... Meu doce LAR!" 2. O que o canceriano espera de seu parceiro: Procura alguém de que possa cuidar, nutrir, paparicar como um bebê. Também busca a segurança que o relacionamento pode dar e alguém que consiga tolerar seu humor instável, um hora alegre, outra hora depressivo. 3. O que o canceriano diz depois do sexo: "Quando vamos nos casar?" 4. Como irritar um canceriano: Insulte sua mãe (com classe, é claro).Critique sua casa. Advirta-o de que ele pode perder o emprego. Diga que aquela foto de família pendurada na sala é brega e confunda o retrato da "vovozinha querida" com o Mike Tyson. 5. Como o canceriano reza antes de dormir: "Querido Papaizinho, sei que eu não deveria depender tanto de você, mas você é a Única pessoa com quem eu posso sempre contar, enquanto meu seguro cobertor está sendo lavado." 6. Por que o canceriano atravessou a rua? Porque estava se sentindo só e abandonado deste lado de cá. 7. Você foi assaltado e o canceriano. Preocupado, vai te confortar: "Senta aqui... Você está bem? com certeza não se machucou? Quer um copo d'água com açúcar?" 8. Adesivo para o vidro do carro do canceriano: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho" 9. Quantos cancerianos são necessários para trocar uma lâmpada? Somente um. Mas leva três anos para um terapeuta ajuda-lo a passar pelo processo.

Leão (23/7 - 22/8): 1. Frase: "Antigamente EU era vaidoso, mas agora me curei e estou PERFEITO!" 2. O que o leonino espera de seu parceiro: Busca alguém com quem compartilhar suas idéias criativas, que goste de crianças e queira ter filhos. Geralmente deseja mais uma platéia para aplaudi-lo ou um companheiro de brincadeiras, do que um verdadeiro amor. 3. O que o leonino diz depois do sexo: "Não foi incrivelmente fantástico?" 4. Como irritar um leonino: Ignore-os. Esqueça o nome deles e pergunte "Qual é mesmo o seu nome?". Em público, não os apresente às pessoas importantes. 5. Como o leonino reza antes de dormir: "Oi, Papi! Eu posso apostar como você está realmente orgulhoso em ter a mim como seu filho!" 6. Por que o leonino atravessou a rua? Para chamar a atenção, sair nos jornais, revistas, etc. 7. Você foi assaltado e o leonino.... "Vou pegar esse fdp!!"... e sai correndo porta afora. 8. Adesivo para o vidro do carro do leonino: "Tudo que tenho me ama" 9. Quantos leoninos são necessários para trocar uma lâmpada Um leonino não troca lâmpadas, a não ser que ele segure a Lâmpada e o mundo gire em torno dele.

Virgem (23/8 - 22/9): 1. Frase: "Já te disse que sou SUPER DEMOCRATA... mas porque você ainda não fez o que eu MANDEI?" 2. O que o virginiano espera de seu parceiro: Busca um relacionamento funcional onde predomine a ordem, a limpeza, e o bom senso, alguém que faça com que tudo corra como deve ser, sem sair da rotina, e sem grandes contratempos. 3. O que o virginiano diz depois do sexo: "Preciso lavar os lençóis" 4. Como irritar um virginiano: Choramingue bastante. Desarrume sua casa, atrapalhe sua programação, esqueça de atarraxar a pasta de dente. Diante do armário do banheiro, indague: "para que tanto remédio?". 5. Como o virginiano reza antes de dormir: "Querido Deus, por favor faça do mundo um lugar melhor, e não o destrua como você fez da última vez." 6. Por que o virginiano atravessou a rua? Ele ainda não atravessou porque está medindo a largura da rua, a velocidade dos carros, se essa experiência é válida, qual seria a melhor hora de atravessar essa rua, etc. 7. Você foi assaltado e o virginiano.... Rodando, preocupado: "Vocês tem certeza que não e melhor chamar um medico? Ou medir a temperatura?" 8. Adesivo para o vidro do carro do virginiano: "Não me siga. Preciso passar no médico" 9. Quantos virginianos são necessários para trocar uma lâmpada? Vamos ver: um para virar a lâmpada, um para anotar quando a lâmpada queimou e a data em que ela foi comprada, outro para decidir de quem foi a culpa da lâmpada ter sido queimada, dez para decidir remodelar a casa enquanto o resto troca a lâmpada...

Libra (23/9 - 22/10): 1. Frase: "A justiça tarda mas não falha, pois está sempre COMIGO". 2. O que o libriano espera de seu parceiro: Busca apreciação mútua e igualdade de compromissos e obrigações entre as partes. Seu objetivo maior é a cooperação, ter alguém para partilhar e para admirar. Detesta pessoas rudes, agressivas ou deselegantes a seu lado. 3. O que o libriano diz depois do sexo: "Eu gostei se você também gostou" 4. Como irritar um libriano: Diga bastante - "Isso é com você, decida logo!". Leve-os a locais feios. Aja de forma grosseira em público, tire melecas, arrote, fale palavrões, vire cerveja na mesa, chame o garçom pelo nome. 5. Como o libriano reza antes de dormir: "Querido Deus, eu sei que eu deveria tomar minhas decisões sozinho, mas, por outro lado, o que VOCÊ acha?" 6. Por que o libriano atravessou a rua? Ele nem precisou atravessar. Alguém acabou oferecendo carona para ele. 7. Você foi assaltado e o libriano.... "Ah, gente, não foi nada, só um assaltozinho à toa... eu mesmo já passei por cinco".. 8. Adesivo para o vidro do carro do libriano: "Não tenho tudo que amo, mas vou ficar conhecendo no sábado à noite" 9. Quantos librianos são necessários para trocar uma lâmpada? Bom, na realidade eu não sei. Acho que depende de quando a lâmpada foi queimada. Talvez só um, se for uma lâmpada comum, mas talvez dois se a pessoa não souber onde encontrar a lâmpada, ou...

Escorpião (23/10 - 21/11): 1. Frase: "Sou super LIBERAL... mas onde você foi, MESMO?" 2. O que o escorpiano espera de seu parceiro: Deseja misturar sua bagagem emocional e material com a do parceiro e espera que este seja adaptável às mais bruscas e extremas transformações que possam ocorrer na vida em comum como, por exemplo, suas crises de ciúmes. 3. O que o escorpiano diz depois do sexo: "Talvez eu deva desamarrar você agora" 4. Como irritar um escorpiano: Faça perguntas pessoais. Saiba muito sobre eles e dê a entender. Obtenha mais sucesso do que eles e se vanglorie. Repita sempre: -"Isso não é da sua conta!" 5. Como o escorpiano reza antes de dormir: "Querido Deus, ajude-me a perdoar meus inimigos, mesmo que os crápulas não mereçam." 6. Por que o escorpiano atravessou a rua? Porque era proibido. 7. Você foi assaltado e o escorpiano.... Diz pra si mesmo, revoltado: - "É nessas horas que é bom andar armado..." 8. Adesivo para o vidro do carro do escorpiano: "Não "possuo" tudo que amo, mas amo tudo que "possuo". E cuido bem de perto" 9. Quantos escorpianos são necessários para trocar uma lâmpada? Mas quem quer saber? Por que "Você" quer saber? Você é um policial?

Sagitário (22/11 - 21/12): 1. Frase: "Já te disse 1.000.000 de vezes que NUNCA EXAGERO!" 2. O que o sagitariano espera de seu parceiro: Busca partilhar seu idealismo e seu senso de justiça com o outro. A relação tem que incluir espírito de aventura, gostar de viajar, estudar, aprender. O parceiro tem que saber compreender sua necessidade de liberdade, de fugir da rotina e sua aguda franqueza. 3. O que o sagitariano diz depois do sexo: "Não me ligue - Eu ligo pra você" 4. Como irritar um sagitariano: Dê a eles bastantes responsabilidades. Coloque realismo na sua filosofia. Nunca ria das piadas deles. Não tope nenhuma aventura ou quebra de rotina e esteja sempre de mau-humor. 5. Como o sagitariano reza antes de dormir: "OH ONIPOTENTE, ONISCIENTE, TODO AMOROSO, TODO PODEROSO, ONIPRESENTE, ETERNO DEUS, SE EU LHE PEÇO UMA VEZ, ESTOU PEDINDO CENTENAS DE VEZES, AJUDE-ME A PARAR DE EXAGERAR!" 6. Por que o sagitariano atravessou a rua? Porque a idéia pareceu maneira e deu vontade. 7. Você foi assaltado e o sagitariano.... "Vamos dar queixa na policia!" 8. Adesivo para o vidro do carro do sagitariano: "Não tenho tudo que amo, mas também nada que me ama me tem" 9. Quantos sagitarianos são necessários para trocar uma lâmpada? O sol está brilhando, está cedo, nós temos a vida inteira pela frente, e você está preocupado em trocar uma lâmpada estúpida?

Capricórnio (22/12 - 19/1): 1. Frase: "HOJE assumi o cargo de vice-diretor de uma empresa que ORGANIZAREI, e será sucesso daqui a 10 ANOS". 2. O que o capricorniano espera de seu parceiro: Busca um parceiro que seja equilibrado e que possa ajudá-lo a alcançar uma posição de destaque e de status na vida. A lealdade e o apoio são mais importantes para ele do que a paixão. 3. O que o capricorniano diz depois do sexo: "Você tem cartão de visitas?" 4. Como irritar um capricorniano: Organize tudo para que se sintam inúteis. Lembre-os de sua baixa posição social. Embarace-os em público: faça escândalos, berre com eles. Deixe-os esperando, nunca chegue na hora marcada. 5. Como o capricorniano reza antes de dormir: "Querido Pai, eu estava indo rezar, mas acho que devo descobrir as coisas por mim mesmo. Obrigado de qualquer forma." 6. Por que o capricorniano atravessou a rua? Porque foi pechinchar nas lojas do outro lado. 7. Você foi assaltado e o capricorniano.... "Quanto levaram??" 8. Adesivo para o vidro do carro do capricorniano: "Tenho tudo que amo, e trabalho muito para ter mais ainda" 9. Quantos capricornianos são necessários para trocar uma lâmpada? Nenhum. Capricornianos não trocam lâmpadas - a não ser que seja um negócio lucrativo.

Aquário (20/1 - 18/2): 1. Frase: "Já estou guardando grana, para construir a NOSSA bela casa lá na LUA". 2. O que o aquariano espera de seu parceiro: Busca um amigo e amante que seja socialmente adaptável, tenha preocupações sociais, goste de seus amigos, e não seja pegajoso. Dá muito valor à liberdade e à afinidade intelectual dentro de um relacionamento. 3. O que o aquariano diz depois do sexo: "Agora vamos tentar sem roupas" 4. Como irritar um aquariano: Torne-se pessoal e íntimo. Ao encontrá-los, dê um longo abraço e fique apertando-o contra o peito, emocionado, lacrimejante. Insista para que eles liguem várias vezes por dia para posicioná-los de seus movimentos. 5. Como o aquariano reza antes de dormir: "Oi, Deus! Alguns dizem que você é homem. Outros dizem que você é mulher. Eu digo que todos nós somos DEUS. Então, por que rezar? Vamos fazer uma festa!" 6. Por que o aquariano atravessou a rua? Porque isso faz parte de uma experiência que trará incontáveis avanços tecnológicos no futuro. 7. Você foi assaltado e o aquariano.... "Ah, pessoal, já que tá todo mundo bem, porque não esquecemos essa estória e vamos jogar banco imobiliário?" 8. Adesivo para o vidro do carro do aquariano: "Não tenho tudo que amo, mas tô pouco me lixando para posses" 9. Quantos aquarianos são necessários para trocar uma lâmpada? Vão aparecer centenas, todos competindo para ver quem vai ser o único a trazer a luz ao mundo.

Peixes (19/2 - 20/3): 1. Frase: "Ontem tinha DÚVIDAS, hoje... NÃO SEI!" 2. O que o pisciano espera de seu parceiro: Busca um protetor amoroso, uma alma irmã, uma pessoa espiritualizada, que saiba aceitar seu humor sempre mutável e sua necessidade de solidão e de privacidade. Ah! E que goste de bichos.. 3. O que o pisciano diz depois do sexo: "Qual você disse que era o seu nome mesmo?" 4. Como irritar um pisciano: Diga para agarrarem-se a si mesmos e esquecerem dos outros. Marque encontro com eles em locais brilhantes, barulhentos, superpovoados, como o metrô da Sé. Deixe-os falando sem parar e no fim diga que não entendeu nada. 5. Como o pisciano reza antes de dormir: "Pai Celestial, enquanto eu me preparo para consumir este último quinto de scotch para esquecer minha dor e meu sofrimento, possa minha embriaguez servir para aumentar sua Honra e Glória." 6. Por que o pisciano atravessou a rua? Que rua? Ih, é... 7. Você foi assaltado e o pisciano.... "Toma esse amuleto, guarda com você... protege contra assaltos.." 8. Adesivo para o vidro do carro do pisciano: "Não me siga. Também não me lembro pra onde eu estava indo" 9. Quantos piscianos são necessários para trocar uma lâmpada? O quê? A luz está apagada?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um turbilhão de coisas acontecendo!!!

Trexo de Goethe, que Naomi San, que foi VIVER(ER ER ER!!!) em Sp colocou no seu lindo mail coletivo. E viva o amigo Giu dela que mandou o texto...

Obs: A vida é louca... Muitas coisas acontecendo! Com que laço se agarra oportunidades?

"Antes do compromisso há hesitação, a oportunidade de recuar, a ineficácia permanente.
Em todo ato de iniciativa (e de criação), há uma verdade elementar cujo desconhecimento destrói muitas idéias e
planos esplêndidos: no momento em que nos comprometemos de fato, a Providência também age.
Ocorre toda espécie de coisas para nos ajudar, coisas que de outro modo nunca ocorreriam. Toda uma cadeia de
eventos emana da decisão, fazendo vir em nosso favor todo tipo de encontros, de incidentes e de apoio material
imprevistos que ninguém poderia sonhar que surgiriam em seu caminho.
Começa tudo o que possas fazer, ou que sonhas poder fazer.
A ousadia traz em si o gênio, o poder e a magia.”

sábado, 31 de janeiro de 2009

"Contei os tijolos da parede
Contei as noites e os dias
Contei as formigas
Contei os fios de cabelo,
As unhas
As rugas e os riscos de minha mão
Rasguei-me inteira para ver de que sou feita
Sou feita de seda e pó
Sem costuras porque sou humana
Não vejo as cicatrizes de onde olho
As cicatrizes estão por dentro"

Helena Schopenhauer Borges

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ahaha! Comentário de Thaíse...

"Sai da lata margarida"

Canção de amor da jovem louca- Sylvia Plath.

Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.
Abro as pálpebras e tudo de novo renasce.
(Acho que inventei você na minha mente.)

As estrelas saem valsando em azuis e vermelhos.
E a arbitrária escuridão chega a galope.
Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.

Sonhei que você me enfeitiçou até a cama
E cantou para mim em desvario.
Me beijou em total loucura.
(Acho que inventei você na minha mente.)

Deus desaba do céu.
O fogo do inferno abranda.
Vão-se os serafins e os homens de Satã.
Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.

Imaginei que você voltaria como prometeu.
Mas envelheço e esqueço seu nome.
(Acho que inventei você na minha mente.)

Eu deveria ter amado um falcão, não a você.
Pelo menos retornam barulhentos quando vem a primavera.
Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.

(Acho que inventei você na minha da mente.)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Minha herança : uma flor

"Achei você no meu jardim
Entristecido
Coração partido
Bichinho arredio

Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim

Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei

Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência
Sempre

A minha herança pra você
É uma flor com um sino, uma canção
Um sonho em uma árvore ou uma pedra
Eu deixarei

A minha herança pra você
É o amor capaz de fazê-lo tranqüilo
Pleno, reconhecendo o mundo
O que há em si

E hoje nos lembramos
Sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza estava juntando
Você e eu

Achei você no meu jardim"
Vanessa da Mata

Para uma nova flor...

"Não é só a inércia a responsável pelo fato das relações humanas se repetirem caso após caso, indescritivelmente monótonas e viciadas. É a inibição frente a qualquer experiência nova e imprevista com a qual não nos achamos capazes de lidar. Mas só alguém que esteja disposto a qualquer coisa, que não exclua nada, nem mesmo o mais enigmático, viverá a relação com o outro como uma experiência viva." (Rilke)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Como a mulher de cada signo acorda!

Roubei isso do blog da Naty (tanks Naty!) Não concordo com tudo mas... É divertido!

Ariana: “Não me diga, não precisa falar, eu já sei dos meus 20 compromissos diários”

Taurina: “Bom dia pessoal! Essa é a lista com hora, minuto e segundos dos nossos compromissos. Ela é organizada e perfeita, já que ninguém tem reclamações, vamos trabalhar.”

Geminiana: "O relógio desperta, mas ela já está lá fora aquecendo o corpo, comendo uma barra de cereal e enviando e-mails enquanto o Sol nasce."

Canceriana: “Bom dia família! Vamos acordando meus amores. As roupas de vocês estão passadas em cima da cadeira e o café da manhã sorri para vocês.”

Leonina "Bom dia Sol! Toda essa luz é para mim?Claro que é, afinal eu sempre acordo tão linda e disposta. E agora vou para o trabalho, que é o melhor, fazer o que e mais amo e faço melhor que ninguém.”

Virginiana: “Já peguei a minha bolsa com todos os meus remédios.Minha escova de dentes, fio dental, enchaguante bucal, absorvente. Conferi três vezes se tranquei as portas, janelas e portão. De acordo com o cronograma estou 30 segundos adiantada!”

Libriana: "Bom dia Sol, bom dia casa, bom dia cachorro, bom dia jardim...”Continua dando bom dia enquanto termina seu alongamento. Toma seu café balanceado, com fibras, minerais e vitaminas.

Escorpiana: “Preguiça....preguiça... daqui uma hora eu levanto. Depois eu convenço meu chefe que eu merecia dormir mais.”Acorda uma hora depois e encontra o café posto, com m bilhete sobre a mesa de alguma apaixonada, que dormiu com ela e já foi embora.

Sagitariana: "Atrasada sai correndo sem tomar café, com uma meia do avesso e esquece alguma coisa importante em cima da cama.

Capricorniana: "Não toma café para economizar. Olha para rua, do 11º andar de seu prédio e diz “Afe...já começou de novo.Lá vou eu salvar a empresa mais um dia. Será que eu tomei meu remédio para pressão alta?”

Aquariana:“Bom dia galera”. Cumprimentando os jovens desabrigados que ela conheceu em um movimento, de causa nobre, noite passada.“Bom, tem comida no armário.Fiquem o necessário, beleza? Vou encontrar o pessoal do outro movimento de manhã, à tarde vou para uma passeata.Quem quiser me achar...bem....deu azar . Volto tarde, não me espere para o jantar”

Pisciana:"Levanta arrumando a cama, limpando o caminho e fazendo uma oração. Continua o dia todo trabalhando freneticamente até a hora de dormir. "

Perfumes no Onibus 168

E por falar em flores... Lembrei de um conto do Cotarzar (autor apresentado pela Naomi, menina de quem sinto saudade). Não achei ele na internet, mas achei uma matéria. Esse não está entre os que marcaram a Naomi, mas me marcou. Existem também outros vários, maravilhosos que nos deixou ( eu e Naomi) empolgadas, loucas, procurando imagens no youTube.
Enfim, é de um livro chamado Bestiário, são contos de realismo fantástico, e deixaria qualquer um encantado...

"Histórias para pensar

SOBRE UM CONTO DE CORTÁZAR
por Rinaldo de Fernandes

Um dos autores mais importantes para mim é o argentino Julio Cortazar. Impossível deixar de reconhecer isso – e permanentemente o faço como gratidão à capacidade desse contista de mover minha sensibilidade e inteligência (se é que as possuo). Gosto de praticamente todos os contos dele – da atmosfera, do ambiente, da arquitetura de seus personagens. Um dos contos mais intensos e inquietantes do século XX é “Ônibus”, que consta do famoso livro Bestiário, que Cortazar publicou na década de 50.

De técnica apurada, acelera o leitor à proporção que a marcha do ônibus aumenta. Clara, uma das protagonistas do conto, pega numa esquina o ônibus 168, que ronda por bairros de Buenos Aires, e se depara com uma estranha gente que passa a observá-la insistentemente assim que adentra o veículo. Os olhares mais duros, e estranhamente ameaçadores, vêm do motorista e do cobrador. À frente, sobe um outro passageiro, um homem, que, como Clara, sofrerá o mesmo peso dos olhares insistentes. Eis o insólito, o fantástico, infiltrando-se no real. Mas infiltrando-se de forma sutil, como o perfume dos ramos que os demais passageiros – que seguem para o cemitério de Chacarita – carregam.

Entrando pela janela como os charcos (e muito provavelmente seus odores) que se estendem nos fundos dos terrenos baldios e que Clara, tentando descontração, observa. Clara e o homem, de uma hora para outra, inseguros, instáveis. Numa palavra, desamparados. Mas nada é mais importante do que a intensidade com que isso é narrado. O motorista, em certo momento, após os outros passageiros desceram diante do cemitério, ficando no ônibus somente Clara e o homem, torna-se ainda mais ameaçador. Vem vez por outra para cima dos dois, agora sentados juntos, tentando enfrentá-los como um desmiolado. Daí a única saída, para Clara e o outro, ser buscar uma maneira de descer desse ônibus, que no entanto descamba por ruas numa velocidade aterrorizante.

O que quer esse motorista tão intimidador? Por que enfrentar dois passageiros que, de tão amedrontados, amparam-se, segurando-se nas mãos? O conto não apresenta as respostas, deixa-as implícitas. Clara e o homem, num lance intempestivo, escapolem do veículo quando este pára diante de uma praça. E saem andando, ainda angustiados, pela praça cheia de crianças e sorveteiros. O homem compra de um vendedor dois ramos de flores. As mesmas flores que eles não dispunham no interior do veículo e que os fizeram se sentir deslocados diante daqueles que as levavam ao cemitério.

Em literatura, penso que poucos personagens pegarão um ônibus tão assustador como esse do autor argentino. Talvez o motorista seja uma alegoria da morte, a que a todos conduz para o desconhecido. Talvez o ônibus seja a nave que a todos transporta para as portas do céu ou do inferno (tal a barca de Caronte). E tudo muito perfumado pelas flores dos que a todos acompanham à campa. Parece ser da morte e da angústia que ela nos provoca que o conto trata."

Rinaldo de Fernandes é contista consumado. Autor das obras O Caçador, Perfume de Roberta. Professor de literatura organizou os livros Chico Buarque do Brasil, O clarim e a oração e Contos cruéis. É titular da coluna Rodapé/ Ponto de Vista Crítico, nos suplementos literários curitibano Rascunho e no paraibano Correio das Artes.

Preguiça de amores inventados

Hoje acordei no clima de Analdo Antunes cantando Exagerado do Cazuza(viva o DUDU)! Ótima desconstrução de uma musica... rs
Não sei ainda colocar links aqui, mas vale a pena ouvir.
Me sinto assim... Exaaaaaaageeeeeeeee e e e e e e e r a d a!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Porque eu nunca poderei me deixar... E que isso venha ao som de um blues!

"para onde vão os trens meu pai? para mahal, tamí, para camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti."
Hilda Hilst

Sem Ana, blues

Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos dourados e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os dourados e o vermelho do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, pergunrando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento-quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência da Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava perdir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tivesse a voz rouca eu a selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando dos dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Débora, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karina, Cristina, Marcia, Nadir, Aline e mais de 15 Marias, e uma por uma das garotas ousadas da Rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaia de couro, e destas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente endurecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar ¿ então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão à Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés ¿ ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, dos sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas à Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas e velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mister Wonderful, musculação, alongamento, yoga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarajá ou Monte Verde e de repente quem sabe Carla, mulher de Vicente, tão compreensiva e madura, inesperadamente, Mariana, irmã de Vicente, transponível e natural em seu fio dental metálico, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e o windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi se tornando ao poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homem-quase-maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei à ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver restos de dourados e vermelhos por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, arrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la, e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. Para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas
Caio Fernando Abreu

Ponha uma margarida na sua fossa!

"O índice de poluicão dos rios é alarmante. Não entre nessa. Ponha uma margarida na sua fossa.

Ou

O asfalto ameaça o homem e as flores. Cuidado. Use uma margarida na sua fossa.

Ou

A alegria não é difícil. Fique atento no seu canto. Basta uma margarida na sua fossa."

Caio Fernando Abreu

Ultimamente toda minha vida está relacionada a flores!!!
Depois desse texto ando pintando margaridas por aí... Quem sabe ajuda!